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Friday, May 02, 2008

Ontem, depois que eu te deixei em casa, confesso que fiquei triste como sempre.

Mas, pela primeira vez, triste por você.

Fico me perguntando que outra mulher ouviria os maiores absurdos como você, um homem de 26 anos, planejando passar o dia em uma rave interminável, cheia de gente drogada e sem assunto e, ainda assim, não deixar de olhar pra você e ver um homem maravilhoso.

Que outra mulher te veria além da sua casca?

Você não entende que eu baixei as músicas do Astrix, GMS e Infected Mushroom porque achei divertido conversar contigo ouvindo as mesmas músicas que você ouvia do outro lado da tela. Achei divertido dançar entre as panelas enquanto fazia um brigadeiro delicioso para você. Um brigadeiro que você não vai comer porque está perdendo o paladar para o que a vida tem de verdadeiro e bom. É tanta comida estragada, plastificada e sem sal, que você está perdendo o paladar para mulheres como eu.

Talvez você não saiba mais como vale a pena gostar de alguém e acordar ao lado dessa pessoa e comer pizza no domingo à noite, vendo o Fantástico na televisão e comentando as notícias malucas desse mundo de meu deus.

Você não sabe como isso é infinitamente melhor do que essa felicidade artificial e inventada. Você não sabe como isso é infinitamente melhor do que acordar com essa ressaca de coisas erradas e vazias. Ou sozinho e desesperado pra que algum amigo reafirme que o seu dia valerá a pena. Ou com alguma garotinha boba que vai namorar sua casca.

E eu tinha vontade de segurar seu rosto e ordenar que você fosse esperto e jamais me perdesse. Eu quis tanto que você entendesse que tínhamos tudo o que duas pessoas precisam para ser feliz. A gente dava muitas risadas juntos. A gente admirava o outro desde o dedinho do pé até onde cada um chegou sozinho. A gente sonhava com sonos jamais despertados antes do meio-dia. A gente já teve a certeza de que nenhum perfume do mundo era melhor do que o cheirinho do outro – mesmo no final do dia.

A gente se reconheceu de longa data quando se viu pela primeira vez na vida.

Aí você me olha com essa carinha banal de “me espera só mais um pouquinho". Querendo me congelar enquanto você confere pela centésima vez se não tem mesmo nenhuma mulher melhor do que eu. E sempre volta.

Volta porque pode até ter uma coxa mais dura. Pode até ter uma conta bancária mais recheada. Pode até ter alguma descolada que te deixe instigado. Mas não tem nenhuma melhor do que eu. Não tem.

Eu malho todo dia igual a essas suas amiguinhas de quem você tanto gosta, mas tenho algo que certamente você não encontra nelas: assunto. Bastante assunto.

Porque, quando você está com medo da vida, é no meu otimismo carinhoso que você encontra forças. E, quando você está rindo de tudo, é no meu realismo que encontra um pouco de chão. E, quando precisa se sentir especial e amado, é pra mim que você liga. E, nos domingos à noite, quando a tristeza chega de mansinho, você gosta de ouvir minha voz pra me sentir perto de você. E, quando pensa em alguém em algum momento de solidão, seja para chorar ou para ter algum pensamento mais safado, é em mim que você pensa. Eu sei de tudo. E eu passei os últimos anos escrevendo sobre como você era especial e como eu te amava e isso e aquilo. Mas chega disso.

Caiu finalmente a minha ficha do quanto você é, tão e tão somente, um cara burro. E do quanto você jamais vai encontrar uma mulher que nem eu nesses lugares em que procura.

Eu vou para a cama todo dia com dois livros e uma saudade imensa de você, ao invés de estar por aí caçando qualquer mala na rua pra te esquecer – ou para me esquecer. Porque eu me banco sozinha e eu me banco com um coração. E não me sinto fraca ou boba ou perdendo meu tempo por causa disso.

E ontem, quando eu te deixei em casa, eu, finalmente, deixei de ter pena de mim por estar sem você e passei a ter pena de você por estar sem mim.

Tadinho.

Batido por Lu às 5:57 AM



Gosto de gente, de abraço, música e riso solto. Também de silêncio e de sensibilidade. Gosto de prosa, de poesia. De madrugada e de dias ensolarados. Fotografo olhares. E tudo o que vejo guardo em álbuns, reais ou imaginários. Amo profundamente. E sem as amarras da mesquinharia. Como queria Clarice (a Lispector), não sou do tipo que passa "a vida inteira lendo o grosso dicionário a fim de, por acaso, descobrir a palavra salvadora". Quero vinda de surpresa. Porque o que há de mais belo sempre vem urgente. Ou vem manso, não sei. (...) Sou do tipo que também não sabe muita coisa.



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