O trato*.(Para ler ouvindo Ilusion, Julieta Venegas) Combinamos que não era amor. Escapou um abraço no meio do escuro. Mas aquilo ali foi sono, sei lá... Não sei o que foi aquilo. Foi a inércia do amor que está no ar mas não necessariamente dentro de nós. A gente foi ao cinema, coisa que namorados fazem. Mas amigos também fazem, não? Somos amigos. Escapou ali uma cabeça no ombro, um beijo na orelha e uma mão que quis esquentar a outra. Mas namorados, nós, definitivamente, não somos. E naquele dia que você me chamou de ‘meu amor’... Eu fiz de conta que não tinha nem percebido. Combinamos que não era amor, lembra? Depois eu quis dar risinhos de felicidade. E depois eu quis chorar. Porque com 2.625 km nos separando não pode haver amor que resista. Mas não... Não era amor. Combinamos que não era. Esqueçamos o ‘meu amor’ e sigamos em frente. Foi um lapso. Prefiro pensar assim. Se eu for muito, mas muito esperta, talvez eu me proteja e não me assuste tanto caso você banque o esperto. Eu sendo de pedra não quebro com a possível pedra que você vai atirar. Sabe-se lá. Aí teve aquela cena também. De quando eu fui te deixar no aeroporto e não queria te deixar sair do carro. E ficamos ali conversando até a última horinha do check-in. E aquela outra vez que você foi me deixar no aeroporto, Los Hermanos no som pelo caminho, e eu não quis que você me deixasse lá dentro porque não queria que você me visse chorando. Porque combinamos que não era amor, lembra? E eu não tinha nada que estar com vontade de chorar ali. E teve também a penúltima cena de aeroporto. Quando você foi me dar tchau e eu perguntei ‘não tô esquecendo nada?’ E eu quis tanto que você gritasse: ‘Tá, ta sim. Tá esquecendo de mim, me leva com você’. Você não me perguntou se tinha alguma coisa sua comigo, mas se tivesse perguntado eu responderia: ‘Tem eu! Eu já sou sua.’ Mas a gente combinou que não era amor. Você comprou meu suco preferido para deixar na sua geladeira, você guardou meu sabonete esfoliante de pitanga pra sentir o cheirinho sempre que sentisse saudade ou só pra testar se aquele cheiro ainda te deixa sem vontade de ir embora. Mas ainda assim, não somos íntimos. Não somos namorados e aquilo não é amor. Tava tudo combinado já. Só fazemos essas loucuras todas, essas horas de vôo e mais horas no telefone e no MSN porque temos coisas em comum. Porque gostamos do Chico, porque lemos os mesmos livros, porque nos conhecemos em uma noite de inverno e porque a partir daí criamos uma história linda. Duas pessoas que se gostam. Só isso. Temos um trato. Está no contrato. E eu assino embaixo. Melhor assim. Muito melhor assim. Tô super bem com tudo isso. Nossa, nunca estive melhor. Mas não faz isso. Não me olha assim e diz que vai refazer nosso acordo. Não faz o mundo inteiro brilhar com um brilho diferente. Não faz o mundo inteiro ficar pequeno só porque você disse que vem passar o fim de semana comigo de novo. Não me deixa assim, de pijama num sábado à noite e rindo de felicidade na frente do computador só por estar tendo um papo leve e divertido com o homem mais inteligente e lindo que eu conheci nos últimos tempos. Não se desdobra pra me fazer rir só porque você achou que eu estava em dias estranhos. Não transforma o mundo em um lugar mais fácil e melhor de se viver. Não me faz ser assim tão absurdamente feliz só porque eu tenho certeza absoluta que nenhum segundo ao seu lado é por acaso. Combinamos que não era amor e realmente não deve ser. Mas esse algo que é, é realmente muito libertador. Porque quando você está aqui, ou até mesmo na sua ausência, o resto todo vira uma grande comédia. E aquele cara mais novo, e aquele outro mais velho, e aquele outro que escreve, e aquele outro que toca, e aquele outro divertido, e aquele outro da festa, e aquele outro amigo daquele outro... Todos eles viram formiguinhas de nariz vermelho tamanha a sua grandiosidade e a grandiosidade desse sentimento-sem-nome que a gente conseguiu construir juntos. Porque só você me mostrou o quão sagrado é ser absurdamente feliz mesmo sabendo a dor que vem depois. Mas eu vou continuar. Vou continuar sendo a sua amiga(?), a pessoa para quem você primeiro liga na hora que recebe uma boa – ou uma má – notícia, a pessoa que você vai pegar no aeroporto uma vez por mês só para passar uns diazinhos leves e matar a saudade. Lembra que você vive falando que quer ter uma filha igual a mim? Pois é... Eu continuarei sendo essa mesmo que sou hoje. Eu vou ser a pessoa por quem você passa quatro horas dentro de um avião, a pessoa em quem você pensa quando está voltando do trabalho para casa e a pessoa que fez com que você tenha querido ser alguém melhor. Eu vou continuar sendo a pessoa que te inspira e que se inspira em você. Mesmo que não seja amor. Mesmo que tenhamos combinado que não era. Mas pensando bem... AMOR não é mais que isso. E eu já percebi. Mas eu não vou te contar não. Pra você não se assustar. E continuar achando que eu estou cumprindo o nosso trato. Combinamos que não era amor, não foi? Lu. Abril/08. * Adaptado. |
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Gosto de gente, de abraço, música e riso solto. Também de silêncio e de sensibilidade. Gosto de prosa, de poesia. De madrugada e de dias ensolarados. Fotografo olhares. E tudo o que vejo guardo em álbuns, reais ou imaginários. Amo profundamente. E sem as amarras da mesquinharia. Como queria Clarice (a Lispector), não sou do tipo que passa "a vida inteira lendo o grosso dicionário a fim de, por acaso, descobrir a palavra salvadora". Quero vinda de surpresa. Porque o que há de mais belo sempre vem urgente. Ou vem manso, não sei. (...) Sou do tipo que também não sabe muita coisa. |
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