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Ele me chamou de descolada.
Batido por Lu às
7:12 PM
Eu. Descolada. Humpf. Ele podia ter me chamado de chata, de enjoada, de fútil. Ele podia até ter me chamado de burra – ouviram? B-u-r-r-a! Mas de descolada não! Eu não sou descolada. Eu sou muito é careta! O botãozinho de baixar o vidro do meu carro quebrou mas eu não vou na oficina sozinha porque não quero que os mecânicos fiquem me olhando. Eu não vou trocar o pneu do carro porque sempre haverá um homem disposto a ajudar uma menina a não sujar as mãos. Definitivamente eu NÃO sou descolada. Eu não tenho uma única tatuagem no corpo porque tudo que é definitivo me dá um medo paralisante. Os meus pais são os meus melhores amigos. Meu pai apaga a luz do meu quarto todos os dias e sempre me espera acordado quando eu saio sozinha à noite. Eu tenho só um furo em cada orelha e quando viajo ligo para casa todos os dias só para dizer que estou bem. Isso é ser descolada? Não, não é. Eu não uso drogas, eu não bebo até vomitar, eu não falo palavrão. Gente, eu não falo pa-la-vrão! Palavras chulas também não estão no meu vocabulário. Eu gosto que ele abra a porta do carro para mim, diga que eu estou linda e me leve para jantar. Eu gosto de fazer papel de menina e não curto feminismos não. Mulher é mulher e homem é homem. Ridículo mesmo é um querer ser o outro. A gente ia no cinema e eu sempre passava na casa dele para pegá-lo – mas era porque ele não tinha carro e não por eu ser descolada e curtia a inversão dos papéis. Descolada eu não sou. Aí só agora me ocorre como é que eu consegui passar tantas semanas com alguém que, apesar de lindo, inteligente e de me ver quase todo dia, não sabia nada de mim. Ora, descolada. Humpf! Mas descoladas também mandam pastar lindo!! Agora agüenta a descolada aqui. |
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Gosto de gente, de abraço, música e riso solto. Também de silêncio e de sensibilidade. Gosto de prosa, de poesia. De madrugada e de dias ensolarados. Fotografo olhares. E tudo o que vejo guardo em álbuns, reais ou imaginários. Amo profundamente. E sem as amarras da mesquinharia. Como queria Clarice (a Lispector), não sou do tipo que passa "a vida inteira lendo o grosso dicionário a fim de, por acaso, descobrir a palavra salvadora". Quero vinda de surpresa. Porque o que há de mais belo sempre vem urgente. Ou vem manso, não sei. (...) Sou do tipo que também não sabe muita coisa. |
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