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Sunday, September 07, 2008

Pra você.

Hoje eu vi o meu passado passar por mim. Em fotos, cartões, livros e escritos. Li antigas agendas, rasguei papéis e guardei outros. E depois de me deparar com uma foto nossa em frente à praia de Boa Viagem, eu percebi que você foi a única coisa que me acompanhou esses anos todos. Constante. Incessante. Contínuo. Mas eu nunca escrevi sobre você.

Eu te conheço há 12 anos, mas nunca escrevi uma linha sobre a sua pessoa. Você é meu melhor amigo, meu companheiro, meu cúmplice nos piores crimes e nas melhores brincadeiras. Há uns bons anos é para você que eu corro para chorar as mágoas, para pedir conselhos, para narrar as vitórias, compartilhar as conquistas e até reclamar dos homens – embora você seja um deles.

E você me agüenta. Agüenta meus dias de TPM, minhas histórias do trabalho, da festa, da praia. Você entende os meus silêncios e os meus sumiços. Me reconhece pela respiração e sabe se eu tô bem pelo jeito que eu digo ‘alô’. Você é o meu ‘Gigante do Coração’. Que ouve os meus sorrisos e sorri junto. Enxuga minhas lágrimas e me mantém de pé. Mesmo longe. Mesmo pelo telefone. Mesmo cansado depois de um dia de trabalho e com mil coisas para fazer. Você me ouve e busca alternativas para o meu crescimento. E como é que eu nunca escrevi para você, me fala!?

A gente sempre andava junto, mas eu nunca tive a brilhante idéia de escrever sobre você. Era eu que te tirava de casa para ferver na pista quando você só queria estudar para o concurso, mas você nunca mereceu uma linha minha. Era eu que ia escolher contigo o presente do dia das mães, do dia dos pais, do aniversário da prima, do amigo, da tia, da avó. Era eu a única pessoa que não ouvia bronca quando derrubava sorvete de morango no seu terno novo. Eu fui a segunda pessoa a saber que você ia virar juiz e a primeira a saber que você tinha decidido pedir a mão dela em casamento. Mas pra me contar que havia desistido, você demorou meses.

E todos os meus namorados tinham um ciúme perturbador de você. E sabe por quê? Porque nenhum deles nunca vai conseguir ser para mim o que você é. Porque só hoje, depois que você me deixou em casa, eu percebi que mesmo que eu nunca mais te veja, não partirei da sua vida. Nem você da minha. Porque temos um pacto de eternidade – que perdurará mesmo que o destino, um dia, venha a nos separar (ainda mais). Porque eu tenho mais de você e você de mim do que qualquer outra pessoa que possa vir a atravessar nossos caminhos. Porque foi você que me ensinou um monte de coisas sobre a vida, o mundo e sobre as pessoas. Porque foi você que me apresentou o Arctic Monkeys e me deu meu primeiro CD do Chico. Foi você que me deu meu primeiro bloquinho, que eu guardo até hoje, e disse que ia me dar sorte. Eu sempre confiei em você e aquele monte de papéis com uma espiral me deu mesmo. Foi você que me ensinou a contar a piada do menino-ventilador e que, por anos, foi a única que eu sabia. E você sempre estava comigo quando eu a contava – mesmo que não estivesse, estava. Sempre. Você também estava comigo quando eu trocava os brincos grandes pelos pequenos, quando comia algodão doce naquele parque do shopping e quando eu comprava livros pela internet. Você estava comigo quando nosso amigo-irmão morreu e foi a sua mão que eu segurei naquele dia difícil. Ele se foi, mas me deixou você de presente.

E eu sou você de saia. As mesmas chatices, as mesmas frescuras, a mesma aversão por cenoura. Eu sou mais você do que qualquer outro homem que passou pela minha vida. E sempre amei infinitamente mais a sua companhia do que a de qualquer bonitinho que me chamava pra ir no cinema numa sexta a noite – mesmo que eu nunca tenha te dito isso. É tudo verdade, embora eu nunca tenha traduzido tanto sentimento para o papel. Simplesmente porque eu nunca tive coragem de escrever sobre você.
Hoje você lembrou da nossa aposta e disse que o tempo tá acabando. E eu me assustei porque é verdade. E você me olhou estranho e eu não consegui não mudar de assunto. E mesmo falando da ventania de agosto, lembrei daquele dia você bebeu e me acusou de me apaixonar pelos caras mais babacas da cidade e eu retruquei, reclamei, briguei, xinguei, chorei. E um ano todo sem falar com você só serviu para eu ver o quanto você era importante e fundamental na minha vida. Mesmo que eu nunca tivesse te dito isso.

Aí agora você vai embora de novo e, mais uma vez, eu me sinto perdendo um pedacinho do meu melhor amigo. Mesmo que você volte mês que vem, ano que vem, verão que vem. Cada vez que você vai, eu perco um pedacinho de mim. Porque mesmo quando estamos juntos e você briga comigo e me dá bronca e me xinga... Eu sei que é para o meu bem. Mesmo quando você discorda das minhas atitudes, como agora, eu sei que é para o meu bem. Porque eu sei que você me ama. Você acha que eu falo demais, que eu penso demais, que eu amo demais. Você acha que eu não tenho jeito. Mas me ama mesmo assim. Desse jeito meio bruto, meio torto. Mas me ama. Do mesmo jeito que eu amo você. Embora nunca fale. Mas amo. Há tempos. E sinto sua falta. Quase todos os dias. Embora eu nunca tenha escrito para você.
Batido por Lu às 6:49 PM



Gosto de gente, de abraço, música e riso solto. Também de silêncio e de sensibilidade. Gosto de prosa, de poesia. De madrugada e de dias ensolarados. Fotografo olhares. E tudo o que vejo guardo em álbuns, reais ou imaginários. Amo profundamente. E sem as amarras da mesquinharia. Como queria Clarice (a Lispector), não sou do tipo que passa "a vida inteira lendo o grosso dicionário a fim de, por acaso, descobrir a palavra salvadora". Quero vinda de surpresa. Porque o que há de mais belo sempre vem urgente. Ou vem manso, não sei. (...) Sou do tipo que também não sabe muita coisa.



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