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Sobre cegueira, tristeza e esperança
Batido por Lu às
7:50 PM
Hoje me perguntaram se estava tudo bem. Pergunta que eu faço – e respondo – incontáveis vezes por dia. Tudo bem e com vc? Mas nessa hora eu respondi diferente: TIRANDO O QUE TÁ RUIM, ESTÁ TUDO ÓTIMO. Eu falei a verdade. Mas a verdade é cruel. “Tirando o que está ruim...” Tirando o que está ruim sobra muito pouca coisa. Porque a semana foi uma bela droga. Eu nem sou de reclamar, eu não sou de xingar e sou do tipo até que vê o lado bom de tudo. Mas um dia até a Pollyana acorda. E essa semana foi uma BELA DROGA mesmo – com tudo maiúsculo, grande, enorme. Muita eloqüência nessa expressão, por favor: UMA BELA DROGA! Eu fiquei doente, eu fui para o hospital, a viagem do fim de semana foi cansativa e pouco proveitosa, eu estou com um calo enorme no pé, eu não tive tempo para desabafar com os meus amigos, eu tive surpresas TRISTÍSSIMAS, eu chorei como há muito tempo não chorava, acordei com a cara inchada e arrisquei a minha vida dirigindo sem ver quase nada na frente (por causa das lágrimas)... Isso só para citar os pontos menos graves. Meus pais, as pessoas que eu mais amo no mundo, me ofereceram ajuda e eu me senti ainda mais frágil por ver a tristeza deles me vendo daquele jeito. Mas ninguém pode ajudar. Quem pode não quer. Mas hoje é sexta-feira e eu prometi para mim mesma que eu não vou chorar aqui de novo. Não quero me fazer de vítima, mas só pode ser o tal do inferno astral. Se ele existe, eu estou nele. Eu perdi a paciência com o computador, perdi a paciência com uma colega de trabalho, perdi a paciência até com gente que só quer me ajudar. E se eu pudesse obrigaria um monte de criaturas a ver Ensaio Sobre a Cegueira e a entender a metáfora tal qual eu a entendi. Mas eu não posso. Eu não posso muita coisa. E preciso parar de bancar a forte porque eu também não posso continuar com isso. Hoje tem show do Nando Reis e no começo da semana eu recebi um email com um convite surpreendente – e só pensava em que roupa usaria. Mas dias depois eu recusei. Eu recusei o convite que eu sempre quis receber por que depois dessa semana... Não... Eu não conseguiria. Se é complicado? Sim, é muito. E eu também desisti de entender. Porque eu estou sem paciência para isso também. Nos domingos eu vou para a missa e sento sempre no mesmo banco. Mas amanhã eu vou sentar bem longe, bem distante, no lado oposto. Porque eu quero fazer tudo diferente – e vai começar de agora. Eu não quero mais andar pelas mesmas ruas, deixar o carro na mesma vaga, nem entrar pela mesma porta. E também não quero mais encontrar quem eu sempre vejo por lá. Fazer diferente, né? Pois bem. Hoje é sexta-feira e eu não fui para o Peppers. Eu não fui para o Botelha, nem para o Boemia. Eu não fui para Petrópolis. Eu nem sequer saí de casa e passei três horas e dez minutos falando no telefone com o meu melhor amigo que mora a milhares de quilômetros daqui. Eu to cansada, to estressada, decepcionada, desapontada, doente, estou farta e infinitamente triste. E depois dessa semana ainda por cima vou ficar pobre de tanto dinheiro que eu vou ter que gastar com cremes anti-rugas. Eu me olho no espelho e não me reconheço. Eu vou embora que é o melhor que eu faço. Vou tentar arrumar um pouquinho a bagunça que está por aqui e daqui a uns dias eu sigo rumo ao aeroporto. Escolho o destino nos próximos dez minutos, quando eu abrir o site da companhia aérea, mas serão dez dias de muita paz – tenho certeza. Eu to merecendo. Aliás, eu to precisando. A única parte boa de tudo isso é que ainda me resta a esperança. Esperança de que quem faz um bem, um dia, mesmo que demore, também recebe o bem. Esperança de que os dias corram e as coisas se adéqüem em seus novos lugares. Não espero que o tempo cure, porque o tempo não cura nada – ele apenas tira o incurável do centro das atenções. Mas eu sempre esperarei aprender todas as lições que vida insiste em me dar. |
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Gosto de gente, de abraço, música e riso solto. Também de silêncio e de sensibilidade. Gosto de prosa, de poesia. De madrugada e de dias ensolarados. Fotografo olhares. E tudo o que vejo guardo em álbuns, reais ou imaginários. Amo profundamente. E sem as amarras da mesquinharia. Como queria Clarice (a Lispector), não sou do tipo que passa "a vida inteira lendo o grosso dicionário a fim de, por acaso, descobrir a palavra salvadora". Quero vinda de surpresa. Porque o que há de mais belo sempre vem urgente. Ou vem manso, não sei. (...) Sou do tipo que também não sabe muita coisa. |
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